quarta-feira, 25 de maio de 2016

Meu querer (Bia Mendonça)


Se pensares que posso esquecer-te, desista
Vou estar cravada em tua carne
Seguindo-te de parte a parte
Parte do teu corpo
Presente em tudo que vês

Se imaginares que não mais vou querer-te, engana-te
Quero-te tanto e como te quero
Hei de querer-te sempre
Com ou sem consentimento
Não me importo se não sentes nada
Sinto muito, sinto tanto e tanto faz

Se achar que me vou algum dia, ilude-te
Já criei raízes e alimentei as plantas
Que cercam teu jardim e guardam-te
Protegem-te, fazem-te meu, pra mim

Mesmo sem o teu querer, ainda assim
Encontrar-me-ei à porta
Vigiando-te  para que não partas
E não abandones o meu querer
Que é teu, e fim.

domingo, 29 de setembro de 2013

Marcos Caiado



nada a declarar. 
a não ser que estou cansado e sem escudos. 
que depois que você foi embora, os deuses ficaram mudos. 
que as borboletas voaram pra outros mundos 
e eu fiquei só. 
só eu e os meus cadernos, 
à mercê dos mais profundos invernos... 

nada a declarar: 
a não ser que eu estou cansado e sem horizontes. 
que depois da sua partida, 
os amigos se debandaram aos montes 
dizendo o quanto fiquei chato e intragável. 
e quando até o automóvel se nega a dar partida, 
repito comigo mesmo: coisas da vida... vai passar! 
a droga, é que nunca passa. 
o foda, é que tudo perdeu a graça. 
(vale acrescentar!) 

vale acrescentar 
que, cada vez que bato à porta da alegria, 
ela grita de longe: passa outro dia! 
tá tudo muito escuro. 
sequer o futuro acredita num claro despertar... 
ficamos então combinados: 
vou dormir com mais este maço de desagravos 
e se por acaso acordar do meio deste pesadelo, 
peço desculpas a ele. 
viro de lado e digo: coisas da vida, amigo... 
pode continuar!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ponta De Areia (Milton Nascimento e Fernado Brant)



Ponta de areia, ponto final
Da Bahia à Minas, estrada natural
Que ligava Minas ao porto, ao mar
Caminho do ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra o povo alegre que vinha cortejar
Maria Fumaça, não canta mais
Para moças, flores, janelas e quintais
Na praça vazia um grito, um ai
Casas esquecidas, viúvas nos portais.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Nosso medo (Nelson Mandela)



Nosso medo mais profundo
Não é o de sermos inadequados.


Nosso medo mais profundo

É que somos poderosos além de qualquer medida.

É a nossa luz, não as nossas trevas,

O que mais nos apavora.

Nós nos perguntamos:

Quem sou eu para ser Brilhante,
Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso? Na realidade, quem é você para não ser?

Você é filho do Universo.

Você se fazer de pequeno não ajuda o mundo.

Não há iluminação em se encolher,

Para que os outros não se sintam inseguros
Quando estão perto de você.

Nascemos para manifestar

A glória do Universo que está dentro de nós.

Não está apenas em um de nós: está em todos nós.


E conforme deixamos nossa própria luz brilhar,

Inconscientemente damos às outras pessoas
Permissão para fazer o mesmo.

E conforme nos libertamos do nosso medo,

Nossa presença, automaticamente, libera os outros.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Receita de Ano Novo (Drummond )



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Entre quatro paredes (Bia Mendonça)



Noite em claro absorvendo loucura
A alegria que o cérebro se nega a produzir
Encontro na química de um pedaço de chocolate
Fórmula quase infalível pra desestabilizar planos de solidão
Ignoro a inspiração que chega
Nego a existência do caderno aberto
A tv abafa os pensamentos com alguma eficácia
Mas, alheia à minha vontade, essa inércia não vai durar a vida inteira
Sair pela rua seria uma boa ideia
A não ser pelo fato de não ser a única a estar lá
Ao virar a esquina alguém pode me chamar pelo nome
Até poderia fingir não ouvir, mas não sou assim, seria obrigada a responder
Conversas ao acaso me preocupam
Posso conduzir o enredo, mas não por todo o tempo
Naquela fração de segundos entre uma palavra e uma respiração
É ali que perco a autoria da história, passo à expectadora de uma trama desconhecida
Ando pela sala
Aquela música no rádio fez o coração contrair de súbito
Quebra-se a aparente segurança da ausência de sentimentos
A mesma nostalgia que acalma, faz chorar
Ah meu Deus, lá se vão as defesas!
Não mais indiferente às emoções
A fuga chega ao fim.